União estável sem escritura pública tem validade?
Sim. E este é um dos erros mais comuns em processos de separação.
Muitas pessoas acreditam que a ausência de escritura pública impede o reconhecimento da união estável. Na prática, isso não é verdade.
Mesmo sem documento registrado em cartório, a união estável pode ser reconhecida, inclusive com direito à partilha de imóveis, veículos, investimentos e patrimônio adquirido durante a convivência.
No Direito brasileiro, a união estável é considerada uma situação de fato, isso significa que o reconhecimento do vínculo depende da forma como o relacionamento existia na prática — e não apenas da existência de um documento formal.
O Código Civil define a união estável como:
“A convivência pública, contínua, duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família.”
Assim, quando não há consenso sobre a separação, sobre os bens ou até mesmo sobre a própria existência da relação, o procedimento adequado pode envolver uma Ação de Reconhecimento e Dissolução de União Estável perante o Poder Judiciário.
Nesses casos, a produção de provas passa a ser o elemento central do procedimento.
O que caracteriza união estável perante a Justiça?
Para reconhecer a união estável, a Justiça exige provas de que existia um verdadeiro núcleo familiar entre o casal.
O objetivo do procedimento não é apenas demonstrar que duas pessoas mantinham um relacionamento afetivo, mas sim comprovar a existência de um projeto de vida em comum.
O Poder Judiciário normalmente analisa elementos como:
- convivência pública
- estabilidade da relação
- rotina familiar compartilhada
- apoio financeiro mútuo
- integração social do casal
- dependência econômica
- patrimônio construído em conjunto
- intenção de constituir família
O foco principal é demonstrar o entrelaçamento da vida financeira, patrimonial, social e familiar dos conviventes.
Quais provas comprovam união estável?
Na dissolução judicial da união estável, a qualidade das provas apresentadas influencia diretamente o reconhecimento dos direitos patrimoniais.
Quanto mais cedo a documentação for organizada, maior tende a ser a segurança jurídica do caso.
📌 Provas financeiras
A Justiça costuma atribuir forte relevância às provas financeiras da convivência, como:
- extratos de contas conjuntas
- comprovantes de despesas compartilhadas
- contas de consumo da residência
- pagamentos de aluguel ou financiamento
- investimentos realizados em conjunto
- contratos assinados pelos dois conviventes
📌 Vínculos institucionais
Também são relevantes os documentos que demonstrem reconhecimento formal da relação perante terceiros:
- plano de saúde
- seguro de vida
- associações
- dependência em benefícios
📌 Provas digitais e redes sociais
As provas digitais possuem grande importância nos processos atuais.
Entre elas:
- conversas de WhatsApp
- e-mails
- histórico de mensagens
- fotografias do casal
- postagens em redes sociais
- registros de viagens
- reservas de hotéis
- passagens aéreas
- comemorações familiares
Esses elementos ajudam a comprovar a publicidade e a estabilidade da relação.
Conversas de WhatsApp servem como prova de união estável?
Sim.
Conversas de WhatsApp podem ser utilizadas como prova judicial, desde que sejam autênticas e demonstrem a dinâmica familiar da relação.
Mensagens organizadas cronologicamente, acompanhadas de contexto e vinculadas a outros documentos, costumam possuir forte eficácia probatória.
Na prática, conversas que demonstram:
- convivência diária
- administração financeira
- planejamento familiar
- dependência emocional e material
- comunicação perante familiares
podem reforçar significativamente o reconhecimento da união estável.
Como funciona a dissolução da união estável?
A forma de encerramento da união estável depende da existência — ou não — de conflito entre as partes.
O procedimento pode ocorrer de forma extrajudicial, diretamente em cartório, ou judicialmente, perante o juiz.
📌 Dissolução extrajudicial da união estável (cartório)
A dissolução em cartório é possível quando:
- há consenso entre os companheiros
- existe acordo sobre a divisão dos bens
- não há filhos menores ou incapazes envolvidos
Nessa hipótese, o procedimento é realizado por escritura pública perante o tabelionato, com acompanhamento obrigatório de advogado.
Na escritura, são formalizados:
- o encerramento da união estável
- a definição da partilha patrimonial
- eventual alteração de nome
- outras cláusulas acordadas entre as partes
A via extrajudicial costuma ser mais rápida, menos desgastante e mais simples do que o procedimento judicial.
📌 Dissolução judicial da união estável
O procedimento judicial passa a ser necessário quando:
- uma das partes nega a existência da união estável
- não há acordo sobre patrimônio
- existe discussão sobre pensão alimentícia
- há conflito envolvendo guarda ou convivência dos filhos
- existem filhos menores ou incapazes
- há divergência sobre o período da convivência
- existe discussão sobre bens adquiridos durante a relação
Nesses casos, normalmente é ajuizada a Ação de Reconhecimento e Dissolução de União Estável.
📌 Etapas da ação judicial de reconhecimento e dissolução de união estável
1️⃣ Definição do período da união
O juiz analisa as provas apresentadas para estabelecer:
- a data de início da união estável
- a data de encerramento da convivência
Essa definição é essencial porque impacta diretamente os bens sujeitos à partilha.
2️⃣ Aplicação do regime de bens
Na ausência de contrato escrito entre os conviventes, aplica-se, em regra, o regime da comunhão parcial de bens.
Isso significa que os bens adquiridos de forma onerosa durante a convivência podem integrar a partilha.
3️⃣ Partilha patrimonial
Após o reconhecimento da união estável, ocorre a análise do patrimônio construído durante a relação.
Podem integrar a partilha:
- imóveis
- veículos
- investimentos
- empresas
- saldos bancários
- aplicações financeiras
- bens móveis
- dívidas adquiridas em benefício da família
Importante: o simples fato de um bem estar registrado em nome de apenas um dos companheiros não impede, por si só, o reconhecimento do direito à partilha.
O principal critério jurídico é verificar se o patrimônio foi adquirido durante a união estável.
Quem tem direito aos bens na união estável?
Em regra, cada convivente possui direito a 50% dos bens adquiridos de forma onerosa durante a convivência.
Isso ocorre porque, na ausência de contrato específico, a legislação aplica automaticamente o regime da comunhão parcial de bens.
Dependendo do caso concreto, também podem existir discussões relacionadas a:
- pensão alimentícia
- uso do imóvel
- guarda dos filhos
- sucessão hereditária
- ocultação patrimonial
- patrimônio adquirido antes da união
- esforço comum indireto
Por isso, cada situação exige análise documental individualizada.
Perguntas frequentes sobre união estável
Existe tempo mínimo para reconhecer união estável?
Não.
A lei não estabelece prazo mínimo de convivência.
O reconhecimento depende da qualidade das provas e da demonstração da estabilidade da relação.
União estável sem escritura dá direito à herança?
Sim.
O companheiro possui direitos sucessórios reconhecidos pela legislação e pela jurisprudência brasileira.
União estável dá direito à pensão alimentícia?
Em determinadas situações, sim.
Isso depende da comprovação da necessidade financeira de uma das partes e da capacidade econômica da outra.
Se a outra parte negar a união, ainda é possível reconhecer?
Sim.
Nesses casos, o reconhecimento dependerá da produção de provas documentais, digitais e testemunhais perante o juiz.
União estável pode ser dissolvida diretamente em cartório?
Sim.
A dissolução extrajudicial em cartório é possível quando existe consenso entre as partes e não há filhos menores ou incapazes envolvidos.
Como iniciar o caso de forma segura
Grande parte das perdas patrimoniais em ações de união estável ocorre pela fragilidade das provas apresentadas logo no início do procedimento.
Por isso, é importante agir rapidamente para preservar:
- documentos financeiros
- registros digitais
- comprovantes
- conversas
- dados de testemunhas
O decurso do tempo pode dificultar o acesso a:
- extratos bancários
- históricos de mensagens
- contas compartilhadas
- registros digitais relevantes para o processo
Cada caso exige análise individual da dinâmica patrimonial e da documentação disponível.
A definição da estratégia jurídica adequada desde o início do procedimento é o que reduz riscos probatórios e protege o patrimônio envolvido.
Para avaliação técnica da documentação e análise da viabilidade jurídica do caso, agende uma consulta.
✍️ Sobre a autora: Veridiana Fernandes Petri (OAB/SP 348.682) é advogada com atuação em Direito de Família e Direito Registral, especializada em união estável, partilha de bens, inventários, retificação de registros civis e regularização documental complexa.



